PragmaCNV

Link no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq: http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/823984

O PragmaCNV – Grupo de Pesquisa em Pragmática da Comunicação Não-Violenta é uma associação de pesquisadores e estudantes dedicada ao desenvolvimento de uma abordagem linguística, pragmática e empiricamente orientada da comunicação não-violenta. O grupo tem como finalidade articular teorias pragmáticas, estudos da interação, aquisição da linguagem, psicolinguística e áreas afins para descrever, formalizar e explicar padrões comunicativos que favorecem ou dificultam a cooperação, o reconhecimento, a autonomia, a reparação e a redução de danos nas relações interpessoais.

Por “pragmática”, compreende-se aqui o campo de estudos voltado à relação entre linguagem, ação, inferência e contexto. Interessa ao grupo investigar como os falantes produzem, compreendem e avaliam sentidos que dependem, em maior ou menor grau, dos contextos linguístico, situacional, interacional e social. Essa perspectiva inclui fenômenos como atos de fala, pressuposições, implicaturas, inferências, polidez, face, poder, agência, conflito, reparo, escuta, responsabilização e negociação de sentidos. A comunicação é, assim, tratada não apenas como transmissão de informação, mas como forma de ação situada, capaz de produzir efeitos sobre os interlocutores, sobre as relações e sobre os modos de convivência.

O eixo programático do grupo consiste na elaboração de uma pragmática da comunicação não-violenta, tomando a CNV não apenas como um conjunto de práticas comunicativas, mas como objeto de investigação científica. Filiando-se à tradição da ação não-violenta, a comunicação não-violenta pode ser compreendida como uma abordagem voltada à identificação de formas de linguagem que contribuem para a alienação, a coerção, a culpabilização, a humilhação, a defensividade e a escalada de conflitos, ao mesmo tempo em que propõe modos de comunicação orientados à escuta, à expressão responsável, ao reconhecimento mútuo, à explicitação de necessidades e à construção cooperativa de caminhos de ação.

Nesse sentido, o PragmaCNV busca investigar, em bases teóricas e empíricas, como padrões comunicativos violentos e não-violentos se organizam linguisticamente, como são interpretados pelos interlocutores, que inferências produzem, que efeitos interacionais desencadeiam e como se desenvolvem ao longo da aquisição da linguagem e da socialização comunicativa. O grupo parte da hipótese de que a linguística, especialmente a pragmática, pode oferecer instrumentos conceituais e metodológicos decisivos para compreender a CNV, ao mesmo tempo em que o estudo da comunicação não-violenta pode recolocar questões centrais para a própria teoria pragmática: a relação entre linguagem e ação, entre inferência e responsabilidade, entre cooperação e poder, entre face e reconhecimento, entre conflito e reparação.

Ao assumir esse programa, o grupo pretende reunir pesquisas teóricas, descritivas, experimentais, aquisicionais e aplicadas que se retroalimentem. Espera-se, no médio prazo, consolidar um campo de investigação capaz de produzir contribuições relevantes para os estudos de pragmática no Brasil e, ao mesmo tempo, liderar nacionalmente — e participar internacionalmente — da construção de uma apreciação científica robusta da comunicação não-violenta e, como objetivo mais amplo, da não-violência. Essa apreciação envolve tanto a formalização de conceitos centrais da CNV à luz da teoria pragmática quanto a produção de evidências empíricas sobre sua compreensão, seus efeitos e seus limites em diferentes contextos comunicativos.

Objetivos e metas a serem alcançadas

  • Desenvolver uma abordagem pragmática da comunicação não-violenta, articulando linguagem, ação, inferência, interação, face, poder, cooperação, conflito e reparação;
  • Investigar padrões comunicativos violentos, alienantes, defensivos, cooperativos e não-violentos em diferentes contextos de uso da linguagem;
  • Incentivar iniciativas para a observação, descrição e explicação do conhecimento pragmático dos falantes, considerando sua representação, processamento e desenvolvimento em crianças, adultos e aprendizes tardios;
  • Produzir evidências empíricas sobre a compreensão, avaliação e processamento de enunciados associados a diferentes formas de comunicação, incluindo enunciados alinhados ou não alinhados à comunicação não-violenta;
  • Promover estudos sobre a emergência e o desenvolvimento de competências pragmáticas relacionadas à cooperação, escuta, expressão de sentimentos e necessidades, pedidos, recusas, reparos, conflitos e negociação de sentidos;
  • Fomentar a formação e capacitação de pesquisadores e estudantes em pragmática, aquisição da linguagem, psicolinguística, análise da interação e estudos linguísticos da comunicação não-violenta;
  • Promover eventos acadêmicos, como congressos, workshops, seminários, grupos de leitura e atividades de intercâmbio;
  • Estabelecer parcerias com instituições nacionais e internacionais interessadas em pragmática, comunicação, desenvolvimento da linguagem, educação, saúde, mediação de conflitos e não-violência;
  • Publicar e disseminar o conhecimento científico por meio da produção de artigos, livros, capítulos, materiais didáticos, instrumentos de pesquisa, bancos de dados e outros produtos acadêmicos.

Eixos de Investigação

  1. Teórico e descritivo: Teorização voltada a descrever, formalizar e explicar padrões pragmáticos da comunicação humana, com atenção especial aos fenômenos de ação linguística, inferência, cooperação, polidez, face, poder, conflito, reparo e reconhecimento. Esse eixo busca desenvolver uma abordagem pragmática para os conceitos e princípios da comunicação não-violenta, examinando suas convergências, tensões e lacunas em relação às teorias linguísticas existentes.
  2. Experimental e psicolinguístico: Estudos experimentais com adultos e crianças, falantes de primeira e segunda línguas, típicos e atípicos, voltados à investigação da percepção, compreensão, avaliação e processamento de aspectos pragmáticos relevantes para a comunicação não-violenta. Incluem-se aqui pesquisas sobre interpretação de atos de fala, inferências, implicaturas, pressuposições, pedidos, recusas, críticas, acusações, julgamentos, expressões de sentimentos e necessidades, bem como formas de linguagem associadas à defensividade, cooperação, empatia e reparação.
  3. Aquisicional e desenvolvimental: Descrição e análise do desenvolvimento da competência pragmática em crianças, com uso de métodos de análise de corpus, observação interacional e estudos experimentais. Esse eixo busca investigar como emergem, na fala infantil e na interação adulto-criança, padrões comunicativos relacionados à cooperação, conflito, escuta, responsabilização, pedidos, recusas, justificativas, reparos, expressão emocional e consideração pelas perspectivas dos outros.
  4. Interacional, social e aplicado: Estudos sobre a comunicação em contextos institucionais, educacionais, familiares, clínicos, organizacionais e comunitários, com foco nos modos como a linguagem participa da produção, manutenção ou transformação de relações sociais. Esse eixo contempla pesquisas sobre comunicação com efeitos violentos e não-violentos em práticas reais de interação, bem como o desenvolvimento de instrumentos de análise, formação, intervenção e avaliação inspirados pela pragmática da comunicação não-violenta.

Justificativa

Os esforços do PragmaCNV visam aprofundar a compreensão da linguagem como forma de ação situada, socialmente consequente e cognitivamente complexa. Ao mobilizar teorias pragmáticas para investigar fenômenos como atos de fala, inferências, pressuposições, implicaturas, polidez, face, poder, cooperação, conflito e reparo, o grupo pretende contribuir para a descrição e explicação dos aspectos pragmáticos da linguagem, em especial no português brasileiro. Também busca ampliar o conhecimento sobre os processos psicolinguísticos envolvidos na compreensão pragmática e sobre o desenvolvimento dessa competência em falantes de primeira e segunda línguas.

A criação do grupo representa, assim, uma contribuição importante para a pesquisa linguística brasileira, tanto pelo fortalecimento dos estudos em pragmática quanto pela abertura de uma agenda própria voltada à comunicação não-violenta. Além disso, o PragmaCNV pretende suprir uma lacuna significativa na literatura nacional e internacional: a ausência de uma apreciação linguística sistemática, teórica e empiricamente robusta da comunicação não-violenta. Embora a CNV esteja em crescente disseminação no Brasil e no mundo, e embora venha sendo tematizada em áreas como educação, psicologia, gestão de conflitos e práticas restaurativas, ainda são raros os estudos que a tomam como objeto propriamente linguístico. Essa lacuna é particularmente importante porque a CNV se organiza em torno de conceitos e práticas eminentemente comunicativos: observações, avaliações, sentimentos, necessidades, pedidos, escuta, empatia, responsabilização, julgamento, culpa, exigência, coerção, conexão e cooperação.

A linguística, especialmente a pragmática, pode oferecer contribuições decisivas para esse campo. Ela permite investigar de modo mais rigoroso quais formas linguísticas e interacionais são associadas à escalada ou à mitigação de conflitos; que inferências são induzidas por diferentes formulações; como pedidos se distinguem de exigências; como julgamentos, acusações e avaliações produzem efeitos de face e de responsabilização; como a expressão de sentimentos e necessidades é compreendida; e como diferentes interlocutores avaliam a força, a legitimidade, a cortesia, a ameaça ou a abertura cooperativa de um enunciado.

Ao mesmo tempo, o estudo da comunicação não-violenta oferece à pragmática um campo fértil para repensar criticamente algumas de suas próprias categorias. Em especial, permite aprofundar a investigação sobre a relação entre cooperação e conflito, entre intenção comunicativa e efeito interacional, entre autonomia e influência, entre inferência e responsabilização, entre face e reconhecimento, entre linguagem e redução de danos. Desse modo, o PragmaCNV não se limita a aplicar teorias pragmáticas à CNV, mas busca também produzir deslocamentos teóricos a partir dos problemas colocados pela comunicação não-violenta.

Por tudo isso, o grupo tem potencial para ocupar posição de liderança nacional nos estudos sobre pragmática da comunicação não-violenta e para contribuir internacionalmente para a consolidação de uma agenda científica ainda emergente. Seu horizonte é produzir conhecimento teoricamente consistente, empiricamente fundamentado e socialmente relevante sobre os modos como a linguagem pode participar tanto da produção da violência quanto da construção de relações mais cooperativas, responsáveis e humanizadoras.

Questões iniciais de pesquisa

  1. Como os conceitos centrais da comunicação não-violenta podem ser descritos, refinados e formalizados à luz das teorias pragmáticas contemporâneas?
  2. Que relações podem ser estabelecidas entre a comunicação não-violenta e teorias pragmáticas sobre atos de fala, inferência, implicatura, pressuposição, polidez, face, cooperação, poder e ação linguística?
  3. Em que medida a distinção proposta pela CNV entre observação e avaliação pode ser compreendida pragmaticamente?
  4. Como distinguir, do ponto de vista linguístico e interacional, pedidos, exigências, demandas, sugestões, convites, recusas e negociações?
  5. Que inferências diferentes são licenciadas ou induzidas por enunciados avaliativos, acusatórios, moralizantes, empáticos, cooperativos ou orientados à responsabilização?
  6. Como os interlocutores percebem e avaliam enunciados associados à comunicação violenta, alienante, defensiva, cooperativa ou não-violenta?
  7. Quais recursos linguísticos e interacionais contribuem para a escalada, manutenção, mitigação ou reparação de conflitos?
  8. Como fenômenos de polidez, impolidez, ameaça à face, preservação da face, reconhecimento e poder se articulam aos conceitos e práticas da comunicação não-violenta?
  9. Como crianças adquirem competências pragmáticas relacionadas à cooperação, escuta, pedidos, recusas, reparos, expressão emocional, negociação de conflitos e consideração pelas perspectivas dos outros?
  10. Como padrões violentos e não-violentos de comunicação aparecem na fala dirigida à criança e na fala infantil?
  11. Que relações podem ser estabelecidas entre teoria da mente, cognição social, desenvolvimento pragmático e comunicação não-violenta?
  12. Como falantes de primeira e segunda línguas compreendem e avaliam enunciados alinhados ou não alinhados à comunicação não-violenta?
  13. Como variáveis como idade, gênero, escolaridade, posição hierárquica, pertencimento social, racialização e contexto institucional afetam a percepção, avaliação e processamento de diferentes padrões comunicativos?
  14. Que estudos experimentais-chave da literatura internacional sobre pragmática, polidez, cooperação, conflito, inferência e cognição social podem ser replicados ou adaptados para o português brasileiro no âmbito do grupo?
  15. Qual é o estado da arte dos estudos linguísticos, psicolinguísticos e aquisicionais sobre fenômenos pragmáticos relevantes para uma pragmática da comunicação não-violenta?
  16. Como desenvolver instrumentos de anotação, descrição e análise para identificar padrões comunicativos violentos, alienantes, cooperativos e não-violentos em corpora de fala e interação?
  17. Que efeitos diferentes são produzidos por formulações mais formais da CNV e por formas coloquiais, indiretas ou culturalmente situadas de comunicação não-violenta?
  18. Como a linguística pode contribuir criticamente para a formação, prática, disseminação e avaliação da comunicação não-violenta em contextos educacionais, institucionais, clínicos, organizacionais e comunitários?

Referências

  • Faria, P. (2026) Toward a Pragmatics of Nonviolent Communication. Memorare, Tubarão, v. 13, n. 1, jan./jun.
  • Rosenberg, Marshall B. (2021[2015]). Comunicação Não-Violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 3ª edição.
  • Muller, Jean-Marie (2007[1995]). O princípio da não-violência: Uma trajetória filosófica. São Paulo: Palas Athena.